
A vida é repleta de inconveniências. Umas mais, outras menos úteis. Como um velho amigo costumava dizer: a preguiça é a mãe da invenção.
Não me entenda mal. Ter o poder de trocar o canal da TV sem me levantar do sofá, ver a luz se acender assim que passo pela porta ou assistir a um filme sem precisar ir a um cinema ou locadora: todas essas conveniências foram impulsionadas pelo nosso desejo de poupar esforços. A preguiça que chamamos de fluidez foi responsável por uma série de inovações ao longo do tempo. Não queremos atrito, não gostamos de gastar energia à toa.
Mas o quanto essa falta de atrito, na verdade, nos prejudica?
Imagine a cena a seguir.
Você está conversando com alguém à mesa, dedicando toda a sua atenção a essa pessoa. No meio do papo, se lembra de uma notícia cujos detalhes parecem escapar à memória. Para remediar o lapso, decide checar no celular.
“— Opa, o Carlos respondeu. Mas peraí… (pensando alto) Não, Carlos, esse arquivo tá desatualizado.”
E digita: V-o-u-e-n-v-i-a-r-a-a-p-r-e-s-e-n-t-a-ç-ã-o-a-t-u-a-l-i-z-a-d-a.
Você envia e desliga o celular. Suspira, com alívio. Olha de novo para a pessoa com quem conversava e, por alguns segundos, não consegue se lembrar do que falavam alguns segundos antes. Então se recorda de que iria checar uma informação no celular. Um tanto sem graça, ensaia um sinal de espera e pega o aparelho de novo. Desbloqueia rapidamente. Mas, antes que possa tomar consciência, já lê na tela, logo abaixo da foto do Carlos: “digitando…”
Quem dentre nós nunca viveu uma situação parecida? Estamos engajados em uma atividade e, ao alternar o foco da conversa presencial para o smartphone, perdemos totalmente o controle sobre a atenção. A esquete a seguir retrata esse momento de forma brilhante (alerta de palavrões e humor ácido).
Alternar o foco é tão fácil quanto alternar a mídia. A aparente fluidez projetada em cada aplicativo termina assim que começa a competição pela nossa atenção. Sem atritos, alternamos sempre que nos parece conveniente (como, por exemplo, para lembrar de uma informação no meio de uma conversa).
Do vídeo em velocidade 2x, deslizamos para outra aba do browser. Pouco a pouco, a ideia de uma experiência fluida se esvai. Porque a falta de fricção e a falta de foco andam lado a lado. Literalmente. Na aba aberta que, com um único clique, tira você do caminho. Na notificação no canto da tela. Em cada vídeo na timeline da rede social.
Quase não há atrito. Quase não há esforço. Quase não gastamos energia. Conveniente? Talvez. Benéfico? Nem sempre.
Os benefícios da inconveniência
A otimização excessiva pode reduzir o valor de um processo junto com etapas importantes. Muitas vezes, ritos ricos são eliminados sob o pretexto da fluidez, apenas para causar maiores problemas mais adiante.
Adicionar um pouco de atrito pode trazer benefícios. Fuben Eki é um termo japonês que trata justamente disso, os benefícios da inconveniência. A ideia é simples: algum desconforto pode ser benéfico.
Quem é pai ou mãe já pratica isso em casa. Quando você manda seu filho ou filha arrumar a cama, levar o prato sujo para a pia ou lavar o copo em que bebeu a água, não está interessado em conveniência. Está ensinando disciplina, esforço pessoal e diligência. São hábitos benéficos para qualquer pessoa.
Inconveniências úteis nos negócios
Nas empresas, tendemos a ignorar etapas importantes de um processo para ganhar tempo, mas podemos acabar perdendo eficácia. Um caso clássico é o planejamento da reunião de vendas. Muitos vendedores querem pular ou “otimizar” essa etapa porque, bem, você sabe… dá trabalho.
E assim, acabam fazendo reuniões medíocres, sem sequer conseguir avançar para o próximo passo. Terminam com o clássico “vamos nos falando”. Sem o devido tempo investido na preparação, desperdiçam o dobro do tempo: o deles e o do cliente.
Da mesma forma, determinadas eficiências podem se mostrar ineficazes. Uma pesquisa da 6Sense, de 2024, mostra que compradores veem muito mais utilidade em reuniões presenciais do que virtuais com fornecedores.
Reuniões online podem ser mais rápidas, mas as presenciais têm suas vantagens, não só para o cliente. Em uma interação presencial, um vendedor experiente pode perceber detalhes importantes sobre como se dão as relações entre as equipes do cliente, ou como reagem a essa ou àquela informação.
Outra prática perigosa é o contorno de objeções. Encarar objeções como obstáculos no caminho ou como “sinal de interesse” só prejudica a venda. Na verdade, cada objeção evidencia ou oculta uma preocupação legítima, que deve ser investigada e trabalhada junto ao cliente.
Inconveniências úteis na aprendizagem
No processo de aprendizagem, algumas dificuldades podem ser desejáveis. Robert Bjork, professor emérito de psicologia na UCLA, fala de condições de estudo que tornam a aprendizagem mais desafiadora e desconfortável, mas aumentam a retenção de longo prazo e a capacidade de aplicar o conhecimento em novos contextos.
Métodos que geram sensação de fluência e progresso rápido, como a prática massiva, podem produzir bom desempenho imediato, mas estão mais suscetíveis ao esquecimento. Intensificar o estudo em poucos e longos períodos pode não ser tão eficaz, embora pareça mais conveniente. Distribuir sessões de estudo ao longo do tempo desacelera o desempenho imediato, mas melhora a memória de longo prazo.
Intercalar diferentes assuntos também parece contraintuitivo. Variar contextos e misturar tópicos e problemas, em vez de aprender um único tipo de habilidade ou conhecimento, favorece diferenciação, generalização, retenção e transferência. Outras pesquisas associam o hábito de escrever à mão a uma maior retenção da informação.
Quando uma atividade é fácil demais, ela cria sensação de fluência, mas essa fluência pode ser enganosa. Tarefas sem fricção adequada não exigem esforço cognitivo suficiente para ativar os processos neurais que sustentam atenção e memória de longo prazo. Não é por acaso que testes são considerados formas eficazes de estudo: o feedback imediato após o atrito de uma resposta incorreta é mais facilmente memorizado do que em uma mera leitura passiva (a corujinha verde sabe das coisas…).
Inconveniências úteis no longo prazo
Algumas práticas inconvenientes no curto prazo podem se mostrar bastante úteis no longo prazo. Já falei de algumas delas lá no início, como o exercício de planejar reuniões de vendas e de dar preferência a reuniões presenciais. Ano passado, compartilhei uma que considero especialmente válida nessa época do ano.
Mas há outras igualmente proveitosas.
Apontar um lápis com o estilete
Acredite se quiser, mas já tive uma aula dedicada ao ato de apontar um lápis. O professor, um mestre da ilustração, fez questão de ensinar a fazer isso com segurança, enfatizando a importância de moldar a ponta de grafite ao objetivo que queremos com o lápis. Se você desenha ou aprecia uma boa caligrafia, recomendo que desenvolva essa habilidade. E, antes que você questione a utilidade do desenho ou da caligrafia, lembre-se de que Steve Jobs fazia aula de caligrafia.
Exercitar-se na zona de desconforto físico
A prática de exercícios regulares já deixou de ser privilégio de poucos. Cerca de 40% dos adultos nas capitais brasileiras praticam atividade física nos níveis estipulados pela OMS (150 minutos de atividade moderada por semana). Especialistas recomendam um certo nível de desconforto na prática para colher melhores resultados para a saúde.
Escrever regularmente
É como dizem: se você pensa sem escrever, está apenas pensando que pensa. O desenvolvimento de ideias elaboradas depende de argumentação lógica profunda, dados confiáveis e estrutura clara. Mas mesmo uma escrita despretensiosa pode trazer bons resultados para o bem-estar. Julia Cameron recomenda escrever 3 páginas à mão com o que surgir na cabeça, não reler, não deixar ninguém ler, todos os dias ao acordar. Pode parecer inconveniente no início, mas em pouco tempo as ideias começam a se mostrar mais claras.
Compartilhar decisões que impactam o futuro
Liderar é, muitas vezes, um esporte solitário. Mas não precisa ser sempre assim. Quando as pessoas se comprometem com uma atividade, quando imbuem um pouco delas na construção de algo, é mais provável que esse compromisso perdure. Por isso, é desejável que as equipes sejam envolvidas na criação estratégica sempre que possível, e não apenas nos resultados dessa criação. Leva mais tempo, dá mais trabalho. Mas o comprometimento que se segue faz tudo isso valer a pena.
Inserir check-ups nas primeiras semanas de um projeto
O início de um projeto é sempre crítico. O cliente quer colher logo os resultados, mas nem sempre eles estarão visíveis; muitas vezes só surgirão bem depois das primeiras notas emitidas. Sem retorno aparente, a sensação de dispêndio pode aumentar a ansiedade já elevada do cliente. O fundamental é estabelecer uma ideia de progresso alinhada às percepções dele e mostrar capacidade de ajustar o percurso na medida em que imprevistos surgirem.
Nunca vou me esquecer da fala da minha esposa quando, em um período de 9 meses, nossa vida deu uma reviravolta:
“— Edu, a vida não tem cronograma.”
Não tem mesmo. Naquele período, há 15 anos, acumulamos novos empregos, uma gravidez, uma viagem, um novo apartamento, o final de um mestrado, uma cirurgia e o nascimento da nossa filha. Inconveniências muito bem-vindas.
Sim, a vida é repleta de inconveniências. Por isso, desejo que, nesse novo ano que se inicia, você não se detenha diante delas. Pelo contrário. Que seja capaz de colher alguma utilidade, aprendizado e prazer das inconveniências que surgirem no seu caminho.
“Não importa o que fizeram de nós. Mas o que faremos com o que fizeram de nós.”
Jean-Paul Sartre.
















