As Cinco Doenças Mortais da Gestão

Este conteúdo é a tradução livre de um vídeo de Edwards Deming, produzido pela Encyclopaedia Britannica Educational Corporation em 1984. Postei o conteúdo integralmente aqui, mas as discussões a respeito dele acontecerão no LinkedIn. Adicionarei aqui os links dos posts para quem se interessar em participar.

Discussão: apresentação e ressalvas.

Discussão: Doença Mortal Número Um

Discussão: Doença Mortal Número Dois

Discussão: Doença Mortal Número Três

Discussão: Doença Mortal Número Quatro

Discussão: Doença Mortal Número Cinco


Acima, vídeo com legenda em inglês. A seguir, a tradução livre


O Prêmio Deming, a mais alta homenagem que uma empresa japonesa pode receber por qualidade e produtividade, foi instituído em reconhecimento às contribuições excepcionais do estatístico e consultor de gestão americano Dr. W. Edwards Deming para a recuperação econômica do Japão no pós-guerra.

Nos últimos anos, o Dr. Deming tem trabalhado com a gestão de vários tipos de organizações americanas, das quais faz um apelo urgente por transformação.


“Deve haver uma transformação no mundo ocidental, pois a indústria americana está em declínio há cerca de quatorze ou quinze anos. Esse declínio continuará até que o estilo da gestão americana mude. O tempo para essa mudança não é longo. Muitas pessoas trabalham com produtividade, dizem que não trabalham diretamente com produtividade, mas sim em como medi-la. O termômetro pode indicar 42 graus Celsius, calor escaldante, mas ele não faz nada para resolver o problema, apenas informa que ele existe. Já tínhamos o problema antes de olhar o termômetro, e ele nada resolve. É hora de as pessoas se levantarem e fazerem algo a respeito. Mas a gestão não consegue. Quase 98% das pessoas, suponho, nem sabem que há um problema ou que podem fazer algo a respeito. É sempre problema do outro, a melhoria é trabalho do outro.

O primeiro passo é descobrir o que está errado no sistema atual. Dr. Deming identificou cinco doenças mortais da gestão americana. Para ocorrer a transformação, essas doenças precisam ser reconhecidas e curadas.”

Doença Mortal Número Um

“Número um é a falta de constância de propósito. Manter a empresa no mercado fornecendo produtos e serviços que terão demanda futura. Eu observo isso no trabalho que exerço em hospitais. Transporte rodoviário, ferrovias, manufatura, lojas de departamento. As pessoas não decidiram o que é aquilo pelo que estão em um negócio. Realmente não sabem.

Definir isso em termos de serviço, produzir produtos e serviços que terão um mercado no futuro? Ou é apenas sobre manter empregos, ser pago, viver um pouco? Talvez entrar em outra coisa.

A falta de constância de propósito significa pensamento de curto prazo.”

Doença mortal número um: falta de constância de propósito

  • Ausência de planejamento para o futuro
  • Falta de definição e objetivos de longo prazo.

Doença Mortal Número Dois

“A segunda doença mortal é a ênfase no lucro de curto prazo. Pensamento de curto prazo. Foco no pagamento de dividendos a qualquer custo. Contabilidade criativa, envio de produtos mesmo que não estejam prontos para melhorar os resultados aparentes. Isso é devastador para o planejamento de longo prazo que mantém a empresa no negócio por meio da melhoria contínua da qualidade de produtos e serviços.

A gestão americana tem cultuado o retorno trimestral para os acionistas. Executivos são avaliados pelo preço das ações. Qualquer coisa para aumentar o preço das ações: aquisições, contabilidade criativa… Há um caminho melhor, um caminho melhor para proteger o investimento. E ele passa por planos que irão manter a empresa no mercado e prover mais e mais empregos. Desemprego não é inevitável. Desemprego é um sinal de má gestão. Perda para o mercado.”

Doença mortal número dois: ênfase nos lucros imediatos:

  • Culto ao dividendo trimestral
  • Sacrifica o crescimento a longo prazo da empresa.

Doença Mortal Número Três

“A terceira doença mortal é o sistema anual de avaliação de desempenho dos funcionários, também chamado de sistema de mérito. Avaliação e classificação anual, muitas vezes chamada de Gestão por Objetivos, que na Alemanha foi chamada de “gestão pelo medo” — o que é ainda melhor. Pagar por mérito, pagar pelo que você leva. Recompensar desempenho parece ótimo! Mas não pode ser feito. Infelizmente, não pode ser feito — no curto prazo. Após 10 anos, talvez. Vinte anos, certamente. Mas os americanos se tornaram obcecados por avaliações anuais, e ninguém sabe de onde isso veio.

Agora, o efeito é devastador. As pessoas precisam ter algo para mostrar, algo contabilizável. Em outras palavras, o sistema de méritos nutre o desempenho de curto prazo e aniquila o planejamento de longo prazo. Aniquila o trabalho em equipe. As pessoas não podem trabalhar juntas para serem promovidas. Você tem que avançar por trabalhar em equipe. Você ajuda outras pessoas. Você talvez se ajude igualmente, mas, oh, você não avança sendo igual. Você avança estando à frente. Produza algo mais! Tenha mais a mostrar. Mais para contabilizar.

Trabalhar em equipe significa trabalhar junto. Ouvir as ideias de todos. Suplementar as fraquezas do outro. Reconhecer suas forças. Trabalhar juntos. Isso é impossível sob a avaliação de mérito, revisão de desempenho. As pessoas estão com medo. Vivem com medo. Trabalham com medo. Elas não podem contribuir para a empresa como gostariam de contribuir. Isso vale para todos os níveis.

Há algo pior do que tudo isso. Quando as avaliações anuais são distribuídas e as pessoas ficam amargas. Elas não conseguem entender por que não foram bem avaliadas. E há um bom motivo para não entender, porque eu poderia lhe mostrar em pouco tempo que é pura loteria. Não. Se isso fosse reconhecido como loteria e chamado assim, então algumas pessoas seriam sortudas e outras não. Elas pelo menos entenderiam o sistema e não se sentiriam mal. Algumas não se sentiriam inferiores, e outras não se sentiriam superiores.”

Doença mortal número três: avaliação anual de desempenho

  • Sistema arbitrário e injusto
  • Desmotiva os colaboradores
  • Alimenta o desempenho de curto prazo
  • Destrói o trabalho em equipe e estimula o medo.

Doença Mortal Número Quatro

“Essa avaliação anual incentiva a rotatividade da gestão. Alguém que não obtenha a melhor avaliação, o que significa um aumento salarial, vai buscar outro emprego. A quarta doença mortal é a rotatividade da gestão. Pessoas que mudam de lugar sem ter raízes na empresa. Sem compreender a empresa. Apenas tentando trazer algumas habilidades. Aprender um pouco mais. Seguir em frente. A gestão requer conhecimento da empresa. Requer raízes na empresa. O conhecimento dos problemas de produção, vendas e serviços leva muito tempo.

No Japão, você vê um homem na gestão que, depois de se formar na universidade, foi para o chão de fábrica por pelo menos três anos. O homem entregava carne, por exemplo. Agora ele é chefe de vendas. Para uma empresa de carne em Tóquio. Ele entregou carne por sete anos. Acordava às três da manhã, entregava carne. Ele conhece as decepções de um cliente. Um hotel que recebeu o tipo errado de carne. Eles não conseguiam entregar o que ele precisava. Entregava carne para hotéis, lojas, restaurantes. Ele sabe o que é ter um caminhão quebrado. Ele conhece esses problemas. As pessoas na gerência hoje não sabem nada sobre os problemas de ninguém. Elas nem mesmo conhecem os seus próprios.”

Doença mortal número quatro: rotatividade da gestão.

  • Sem raízes na empresa.
  • Sem conhecimento da empresa.
  • Sem compreensão de seus problemas.

Doença Mortal Número Cinco

“A quinta doença mortal é usar somente números visíveis na gestão. Apenas números visíveis. Com pouca ou nenhuma consideração por números desconhecidos ou incognoscíveis. Agora, você pode me perguntar: bem, por que você fala sobre números desconhecidos? Se são desconhecidos, como você sabe disso? Que são importantes?

Bem, vamos dar uma olhada em alguns dos números desconhecidos e incognoscíveis. Muito simples. Um deles é o efeito multiplicador de um cliente satisfeito. Quanto negócio um cliente satisfeito lhe traz? Ninguém conhece as suas conjecturas. Ninguém sabe. E quanto ao efeito multiplicador de um cliente insatisfeito? Ele afasta os negócios. Você pode ser bastante eficiente. Ele não. Ele faz o possível para proteger seus amigos.

Onde estão os números? Onde estão os números sobre o efeito multiplicador de um cliente satisfeito? Efeito multiplicador de um cliente insatisfeito? Não vejo os números. Eles são muito importantes. Quem administra a empresa sem eles não terá empresa. As escolas de administração fizeram seu trabalho. Elas não estão ensinando transformação. Estão ensinando o uso de números visíveis. Contabilidade criativa. Como maximizar o preço das ações da empresa mantendo o dividendo trimestral.”

Doença mortal número cinco: uso apenas de números visíveis.

  • Não uso de números desconhecidos e incognoscíveis.
  • Incentivado pelas escolas de administração.

“Veja bem, a indústria americana enfrenta a concorrência dos japoneses, que não têm essas doenças mortais. Eles não têm a avaliação anual. Não têm rotatividade de gestão nem rotatividade de qualquer outra coisa. Eles têm constância de propósito. Pretendem permanecer no mercado. E fazem um ótimo trabalho, você tem que admitir. Não há aquisições. Não há alavancagem. A administração e todos na empresa têm um único objetivo: qualidade.

E você me pergunta sobre este país. Com um grande número de desempregados, alguns dispostos a trabalhar, muitos deles dispostos a trabalhar com habilidades, conhecimento. Vontade de trabalhar. E pessoas na administração, incapazes de trabalhar através do sistema de mérito, avaliação anual de desempenho, incapazes de entregar o que são capazes de entregar.

Quando você pensa em todo o subaproveitamento, abuso e uso indevido das pessoas deste país, esta pode ser a nação mais subdesenvolvida do mundo. Número um, fizemos isso de novo. Somos o número um. Estamos em desenvolvimento. Nosso povo não é utilizado, é mal administrado, mal utilizado e abusado e subaproveitado por uma administração que venera vacas sagradas. Um estilo de administração que nunca foi correto.

A principal sorte deste país entre 1950 e 1968 foi que o resto do mundo, grande parte dele, estava devastado. Não havia como errar, não importa o que você fizesse. Esses dias acabaram, e já acabaram há muito tempo. Já é hora da administração americana acordar.”

W. Edwards Deming, 1984

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