Autenticidades

Seja você mesmo. Todos os outros já foram escolhidos.

A frase, atribuída ao escritor inglês Oscar Wilde, figura em primeiro lugar entre as citações do Goodreads. Seja você mesmo é conselho gratuito a qualquer um que queira ampliar o alcance da própria imagem: do político ao influenciador, passando por você, que busca projetar um pouco da própria identidade no que faz. Essa frase poderia ser o nome de um livro de autoajuda, um post no LinkedIn ou um curso online.

Ninguém negaria a sua importância. Mas o que significa ser você mesmo?

Peço desculpas antecipadas por trazer para cá um pouco das minhas peculiaridades, mas não posso falar por outro. Eu, terceiro filho e distante 4 anos do segundo, sofri menos o fardo das expectativas elevadas. Acho que isso me deu um pouco de autonomia pra buscar o queria da vida, embora esse “o que queria” tenha variado um bocado. Minhas influências culturais foram as histórias que ouvia, os livros, álbuns de figurinhas e gibis. O cinema e os programas de TV.

Aprendi a ler com a minha avó, antes da escola me obrigar a preencher pontinhos. Aos 6 anos, ganhei dela uma enciclopédia Conhecer (até hoje me lembro da minha emoção ao abrir a caixa). Aprendi tabuada com minha tia-avó, então com mais de 80 anos. A desenhar, com meu irmão do meio. A ouvir música, com minha mãe e meus irmãos mais velhos. A andar de bicicleta, com o meio-fio em frente à casa em que morei no interior. A brigar, com um primo muito amigo, mas incorrigivelmente irascível, que sempre se envolvia em confusão. A amar, com todos que me amaram incondicionalmente (e sou imensamente grato por nunca ter me faltado). Nunca soube jogar bola, mas também nunca deixei de tentar aprender. Na verdade, nunca deixei de tentar aprender nada disso.

Não somos ilhas. Nossa percepção sobre nós mesmos é influenciada pela forma como somos percebidos pelos outros. Nessas trocas com o mundo, também aprendemos a ser. E seremos não só o quanto nos permitirmos, mas também o quanto o mundo nos permitir.

Ser eu mesmo não depende só de mim.

Não foi por acaso que Wilde, com uma clareza desconcertante, deixou essa outra pérola:

O homem é menos ele mesmo quando fala em seu nome. Dê-lhe uma máscara, e ele lhe dirá a verdade.

A máscara nos libertaria das amarras da validação social. Com ela poderíamos, finalmente, exercer a nossa autenticidade. Mas se esperamos algum reconhecimento a partir das nossas manifestações de autenticidade, de que adiantaria tal máscara?

Me ocorreu então que conhecemos, por outro nome, um tipo mais aceito de máscara: o papel.

Vejamos, por exemplo, a aparente liberdade da rede social. Aqui, muitas vezes, freamos essa autenticidade ao sabermos que tudo o que dissermos ou escrevermos está sendo selado, registrado, carimbado, avaliado e rotulado, como diria Raul.

Aqui, alguns evitam determinados assuntos ou pensamentos para não se expor a potenciais empregadores ou clientes. Outros usam a polêmica como tática para ganhar visibilidade.

Mas o desafio de sermos nós mesmos também decorre de sermos muito mais do que essa pequena fração visível.

Parceiro de Oscar Wilde, Walt Whitman disse em verso: eu contenho multitudes. A fala é um convite a pensarmos sobre as nossas próprias incoerências, e também sobre a nossa própria vastidão.

Nos apresentamos ao mundo de diferentes formas, nas quais emergem incoerências e vastidão. Conforme as circunstâncias do momento, damos fluidez às nossas autenticidades. Metamorfoses ambulantes.

O médico que trata o paciente em seu consultório assume o papel de paciente ao adentrar o consultório de outro médico para se consultar. O professor que estende seus estudos a uma nova graduação ou pós, volta também a ser estudante.

No papel, encontramos a coerência com o contexto.

E não nos enganemos: na rede social, todos representamos um papel. Evitamos dizer o que diríamos na nossa intimidade, longe da possibilidade do print da tela.

Então, em busca da tal autenticidade, performamos. Assumimos um papel social, uma identidade adaptada. Aqui, como em outros papéis sociais, desenvolvemos a capacidade de moldar nossas ações a cada situação, sem deixar de lado a coerência com nossos valores fundamentais. Mas por ser um espaço de expressão dessas autenticidades, ganhamos evidência.

O problema é que a rede social recompensa rapidamente a performance.

Assim, alguns, performáticos demais, levam a performance às últimas consequências: quando menos percebem, se encontram longe dos tais valores fundamentais. Mais dedicados à obra de ficção no palco, acabam se perdendo no personagem.

Em casos extremos, são capazes até mesmo de roubar e manipular a foto de um palestrante para fazer parecer que são eles. Copiar um post inteiro e publicar em próprio nome já nem é mais problema. Não buscam autenticidade de fato, apenas roubam para si um aspecto da autenticidade do outro.

O profissional que se perde nesse caminho se engana duas vezes. Na primeira, por acreditar no personagem que criou. E na segunda, por acreditar que esse personagem é o verdadeiro protagonista da sua história de vida.